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AMOR E FELICIDADE
Alcançar o amor talvez exija mais
renúncia do que alegria e felicidade.
Nem sei se a felicidade pessoal é compatível com o amor.
Por que ligar felicidade ao amor?
O amor é sério demais para almejar a felicidade.
A felicidade está sempre ligada a alguma forma de inconsequência.
A paixão sim faz a gente feliz. Só transar? Melhor ainda.
Assim como é preciso alguma crueldade para viver, assim como há sempre
alguma agressão embrulhada em qualquer vitória, também a felicidade
precisa de alguma inconsequência.
O amor por si, é repleta de "trágicos deveres".
Por isso o amor não está ligado à felicidade.
Os que assim a perseguem, deveriam desistir de amar.
O amor é um sentimento ligado à lucidez, à renúncia, à compreensões
das contradições.
Amar é ser capaz de viver um sentimento que se misture fundo com a
vida, se torne corriqueiro, mal percebido, sem grandeza, sem efeitos
extraordinários, emoções particulares ou excitantes.
Aqui reside, pois, a complicações do amor.
Só se torna visível quando ameaçado acabar.
Só se o descobre quando se supõe nada mais sentir.
Está onde menos se espera.
É profundo, vital, doador, independente de exaltações. Flui
imperceptível, aparece ao sumir.
Pessoas que separam, mesmo livres uma da outra, sentem um vazio, uma
perda, um sentimento de possibilidade perdida.
É preciso muito viver, muito desiludir-se, muito sentir, muito
experimentar, muito perder, muito renunciar, para encontrar o próprio
amor, guardado não se sabe em que dobra da gente, e muitas vezes nunca
descoberto.
Morrer sem descobrir o próprio amor escondido é frequente. E terrível.
O que estamos fazendo com o amor que está em nós e diariamente
trocamos pelas emoções prazenteiras, pela felicidade inconsequente,
pelas alegrias passageiras?
O que estamos fazendo? O que?

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